Expedições MOBFLU | Caminhos Agrícolas e Ferroviários

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Uma viagem pelas montanhas e caminhos históricos da Serra Fluminense, conectando Teresópolis, Nova Friburgo e Sumidouro. Entre mirantes, paisagens rurais, hortaliças, cultura suíça, apicultura, arte e gastronomia, o percurso também mergulha na memória ferroviária, atravessando o antigo Ramal de Sumidouro, seus túneis e ruínas. Uma experiência entre natureza, história, estrada e descobertas.

Principal porta de entrada de Teresópolis para quem chega pela BR-116, a Avenida Rotariana, localizada no bairro do Soberbo, é um dos cartões-postais mais emblemáticos da cidade, oferecendo uma das mais famosas vistas do Dedo de Deus. Muito mais do que uma via de acesso, a avenida concentra importantes atrativos turísticos, como o Portal de Teresópolis, hotéis, pousadas, restaurantes, o acesso ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos e diversos mirantes naturais que revelam a imponência da cadeia montanhosa. Projetada com canteiros ajardinados, hortênsias, mastros com bandeiras e um paisagismo cuidadosamente planejado, a Avenida Rotariana proporciona uma recepção acolhedora aos visitantes e reforça o charme característico da cidade serrana. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Minha jornada começou ainda de madrugada, em Deodoro, no Rio de Janeiro. Às 6h, deixei a área urbana da capital para alcançar Saracuruna e, dali, tomar a BR-116, no trecho Rio–Teresópolis, seguindo em direção à serra.

A primeira parte do percurso foi marcada pela transição entre a ocupação metropolitana da Baixada Fluminense e os espaços progressivamente mais rurais que antecedem a Serra de Teresópolis. A paisagem vai se transformando pouco a pouco: o tecido urbano mais denso dá lugar a áreas de ocupação esparsa, estabelecimentos às margens da rodovia e trechos de vegetação que anunciam a aproximação das montanhas.

A passagem por Parada Modelo marcou a entrada no eixo serrano. O distrito está situado em um importante entroncamento rodoviário entre a BR-116, que conduz à Serra de Teresópolis, e a RJ-122, ligação em direção a Cachoeiras de Macacu e à Região Metropolitana. Logo na entrada, um pórtico de grandes dimensões, com iluminação característica, funciona como elemento marcante de identificação do distrito. O movimento das rodovias, o comércio linear e a ocupação às margens dos eixos viários revelam a importância de Parada Modelo como ponto de conexão entre diferentes caminhos da região.  FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

BR-116 | Saracuruna → Prata

Nesse trecho, viajei por uma rodovia de importância estratégica para a ligação entre o Rio de Janeiro e a Região Serrana. Diferentemente das estradas estaduais que encontraria mais adiante, a BR-116/RJ está inserida no sistema federal de concessões e o trecho Rio–Teresópolis é atualmente administrado pela Ecovias Rio Minas, concessionária do grupo EcoRodovias. A concessão inclui expressamente os segmentos Rio–Teresópolis, tanto na Baixada quanto na Serra.

Ainda em Magé, na localidade de Jororó, a Serra dos Órgãos já se impunha no horizonte. À medida que avançava em direção à serra, os grandes paredões rochosos surgiam ao fundo, formando um contraste marcante com a paisagem mais baixa e urbanizada da Baixada. Essa visão antecipava a mudança de cenário que viria pela frente: da planície e dos vales de Magé para as escarpas da Serra do Mar, onde o relevo se eleva abruptamente e a paisagem passa a ser dominada pela Mata Atlântica. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A infraestrutura rodoviária também acompanha essa importância. Ao longo do trecho concessionado existem bases operacionais e estruturas de atendimento aos usuários. Entre as bases oficialmente relacionadas à BR-116/RJ estão a BSO localizada no km 77+800, em Teresópolis, e outra no km 109+170, em Guapimirim.
Entre os serviços disponíveis no eixo estão atendimento emergencial, apoio operacional e informações aos usuários. A concessionária mantém canais gratuitos de atendimento 24 horas.

Durante o percurso pela BR-116, encontrei o GP 10, um dos guinchos pesados da EcoRioMinas. O Volkswagen Constellation 31.320, preparado para operações de remoção e atendimento a veículos de grande porte, seguia pela rodovia integrando a estrutura operacional da concessionária. Sua presença é um detalhe que evidencia a dimensão do sistema de suporte disponível ao longo da Rio–Teresópolis, especialmente importante em um trecho serrano, marcado pelo relevo acidentado e pelo intenso tráfego de veículos pesados. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A estrada, portanto, não funciona apenas como uma linha de deslocamento: ela estrutura uma sequência de núcleos urbanos, áreas comerciais, serviços rodoviários e acessos às comunidades serranas.

À medida que avancei em direção à Prata, a paisagem começou a adquirir outra escala. A Serra dos Órgãos passa a dominar o horizonte e a estrada deixa de ser apenas um caminho entre cidades para se tornar uma espécie de corredor de aproximação às montanhas.

Teresópolis | Mirante do Soberbo
Chegando ao Mirante do Soberbo a viagem ganha outra escala. O relevo deixa de ser apenas o cenário da estrada e passa a ser o próprio protagonista.

Ao atravessar a ponte sobre o Rio Soberbo, na BR-116, a paisagem chama a atenção pelo contraste entre a rodovia e o exuberante mosaico de Mata Atlântica que cobre as encostas da Serra dos Órgãos. Entre árvores, cipós e montanhas ao fundo, o rio segue seu curso, integrado à paisagem que acompanha o viajante pela estrada. O Soberbo faz parte da bacia hidrográfica que drena para a Baía de Guanabara, e suas nascentes estão associadas às áreas preservadas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO). A proteção dessas nascentes e da vegetação é fundamental para a manutenção dos recursos hídricos e do equilíbrio ambiental da região. É interessante observar como, nesse cenário, máquinas, caminhões e automóveis dividem o mesmo espaço com a floresta. O movimento constante da rodovia contrasta com a natureza ao redor, lembrando que infraestrutura e preservação precisam conviver em uma das paisagens mais marcantes da Serra dos Órgãos. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE 

Diante de mim estava o conjunto montanhoso da Serra dos Órgãos, com o icônico Dedo de Deus dominando a paisagem. A montanha não é apenas uma referência visual de Teresópolis: integra o complexo do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, unidade de conservação federal que protege aproximadamente 19.855 hectares distribuídos por Teresópolis, Petrópolis, Magé e Guapimirim.

A paisagem que observo dali resulta de uma combinação extraordinária entre geologia, altitude e Mata Atlântica. O PARNASO apresenta diferentes formações vegetais de acordo com a altitude, desde florestas submontanas e montanas até formações altomontanas e campos de altitude.

O Dedo de Deus, com 1.692 metros, também ocupa um lugar especial na história do montanhismo brasileiro. A conquista de sua via clássica, em 1912, é considerada um marco da escalada no Brasil.

Do Alto do Soberbo, pela própria rodovia BR-116, surge uma das vistas mais marcantes da Serra dos Órgãos. À frente, o cenário se abre para o imponente conjunto formado pelo Dedo de Nossa Senhora, Dedo de Deus e Cabeça de Peixe, recortado contra o céu e envolvido pela exuberante Mata Atlântica do PARNASO. A paisagem revela uma interessante convivência entre a rodovia, por onde seguem diariamente carros, caminhões e máquinas, e a natureza preservada que domina as encostas. É como se a estrada conduzisse o viajante por um corredor natural até um dos cartões-postais mais emblemáticos da Serra. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Por alguns minutos, todo o restante do percurso parece desaparecer. A estrada, os veículos e as cidades ficam pequenos diante da dimensão das montanhas.
O relevo que aparece diante do viajante faz parte do sistema da Serra do Mar, formado predominantemente por rochas como gnaisses e granitóides.

Prata → Campo do Coelho | RJ-130, a Terê-Fri

Na altura da Prata, deixei a BR-116 e entrei na RJ-130 — Estrada Terê-Fri, iniciando uma das partes mais bonitas do percurso.

A mudança é imediata. A rodovia passa a acompanhar uma paisagem muito mais rural e montanhosa. A RJ-130 liga Teresópolis a Nova Friburgo e é reconhecida pelo próprio DER-RJ como um dos caminhos que contornam a Serra dos Órgãos. Além da função turística, possui enorme importância para o escoamento da produção agrícola regional.

Ao atravessar a região de Vieira, pela RJ-130, a paisagem se abre entre áreas agrícolas e as montanhas que marcam a divisa entre Teresópolis e Nova Friburgo. Em determinado ponto, uma formação rochosa se destaca no horizonte: o Alto do Felício, também conhecido como Pirâmide de Vieira, com cerca de 1.650 a 1.700 metros de altitude. A montanha surge como um dos elementos mais marcantes da paisagem nesse trecho da Terê-Fri. Sua posição na divisa municipal reforça a percepção de que a estrada atravessa uma verdadeira zona de transição entre os territórios de Teresópolis e Nova Friburgo. As encostas ao redor também estão relacionadas às cabeceiras do Rio Vieira, evidenciando como o relevo serrano condiciona simultaneamente a formação dos vales, a drenagem e o próprio traçado das estradas. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Em determinados pontos, a estrada parece atravessar um grande mosaico de propriedades rurais. Surgem pequenas plantações, estufas, sítios, restaurantes e propriedades que aproveitam os vales e encostas para a produção agrícola.

É especialmente perceptível a presença da produção de hortaliças, característica marcante da região entre Teresópolis e Nova Friburgo. A própria Prefeitura de Nova Friburgo destaca a concentração expressiva de produtores rurais, principalmente de hortaliças, ao longo da RJ-130.

Essa agricultura modifica completamente a paisagem. Em vez de uma serra dominada exclusivamente pela mata, encontro uma sucessão de áreas cultivadas, pastagens, pequenas propriedades e fragmentos de Mata Atlântica.

Em Vieira, a Terê-Fri atravessa uma das paisagens agrícolas mais características da Serra Fluminense. O relevo divide o espaço entre pequenas propriedades, lavouras de hortaliças, estufas, pastagens e fragmentos de Mata Atlântica. A agricultura familiar sustenta boa parte da economia local, enquanto as estradas vicinais levam a produção até a RJ-130 para seu escoamento. Entre os cultivos e os vales drenados pelo Rio Vieira, a paisagem rural se mistura ao turismo de natureza e revela como economia, água e relevo estão profundamente ligados nesse setor de Teresópolis. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A Terê-Fri também guarda marcas de sua própria evolução. Existem trechos da antiga estrada que precisaram ser recuperados para garantir a ligação entre as comunidades rurais, mostrando como a atual infraestrutura rodoviária se sobrepõe a caminhos mais antigos de circulação.

Mirante do Alto de Vieira | Teresópolis

Continuei pela Terê-Fri até o Mirante do Alto de Vieira.
A paisagem aqui assume outra característica. Em vez da monumentalidade concentrada do Dedo de Deus, o olhar se abre para um cenário mais amplo de vales, propriedades rurais e sucessões de montanhas.

É justamente nessa região que a relação entre agricultura e relevo se torna mais evidente. As áreas cultivadas ocupam os espaços mais favoráveis dos vales e encostas, enquanto os fragmentos de floresta permanecem principalmente nas áreas mais íngremes e menos apropriadas à ocupação agrícola.

A estrada passa a funcionar como uma linha de observação privilegiada dessa paisagem rural.

No Mirante do Alto de Vieira, a paisagem da Terê-Fri se abre em um amplo cenário rural, onde o relevo serrano se mistura ao mosaico de lavouras que caracteriza Vieira. Dali, é possível perceber a sucessão de vales e montanhas do interior de Teresópolis e, ao fundo, o relevo associado ao Parque Estadual dos Três Picos. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A viagem prossegue por um território em que os limites municipais nem sempre são percebidos visualmente. Não existe necessariamente uma placa ou uma mudança brusca de paisagem indicando a passagem de Teresópolis para Nova Friburgo. Muitas vezes, o limite é uma linha administrativa imaginária traçada sobre uma paisagem contínua de montanhas, vales, propriedades rurais e cursos d'água.

Alto de Vieira → Nova Friburgo

Seguindo pela RJ-130, entrei definitivamente no território de Nova Friburgo. O movimento urbano começa a aumentar à medida que me aproximo dos núcleos habitados, mas ainda existe uma forte presença rural. É uma das características mais interessantes da Terê-Fri: mesmo sendo uma ligação entre dois importantes municípios serranos, ela mantém longos segmentos onde a agricultura continua sendo parte essencial da paisagem.

Essa relação entre turismo e produção rural não é casual. O próprio DER-RJ caracteriza a RJ-130 simultaneamente como rota turística e importante via de escoamento da produção agrícola.

Casa Suíça | Nova Friburgo

Depois de atravessar a paisagem rural, a visita introduziu outro componente fundamental da identidade de Nova Friburgo: sua formação cultural ligada à imigração europeia.

A própria arquitetura da Casa Suíça já prepara o visitante para a experiência: o edifício foi concebido à maneira de um grande chalé suíço, com telhado inclinado, madeira e elementos que evocam a arquitetura alpina. Em meio à paisagem serrana de Conquista, a construção funciona como uma representação visual da herança helvética que marcou a formação cultural de Nova FRIBURGO. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Minha passagem pela Casa Suíça foi uma imersão na história e na identidade cultural de Nova Friburgo. O Memorial da Colonização Suíça apresenta elementos que ajudam a compreender a chegada dos imigrantes suíços e sua influência na formação do município.

A experiência vai além do aspecto histórico: o espaço também reúne produtos típicos, queijos, chocolates e artesanato, aproximando memória, cultura e gastronomia. Foi uma parada que trouxe um sabor especial à viagem e ajudou a compreender uma das raízes mais marcantes da cidade.

Logo na área externa, uma grande escultura de vaca pintada com a cruz suíça anuncia a temática do espaço. Mais do que um elemento decorativo, a peça sintetiza a ligação entre a identidade helvética preservada pela Casa Suíça e a tradição leiteira que se manifesta na produção de queijos do complexo. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A parada funciona como uma espécie de transição entre a paisagem agrícola que vinha observando pela estrada e a história social do município.

Museu do Mel | Nova Friburgo

A visita trouxe novamente a relação entre território e produção. Depois de observar plantações e propriedades rurais ao longo da Terê-Fri, pude conhecer uma atividade diretamente relacionada aos ecossistemas e à produção agrícola: a apicultura.

O jardim foi uma das partes mais encantadoras da visita. Entre a vegetação exuberante e o bambuzal, encontrei um lago ornamentado atravessado por uma ponte vermelha em estilo oriental, além de elementos paisagísticos que criam uma atmosfera de tranquilidade e contemplação. A esfera metálica sobre o lago acrescenta um toque artístico ao cenário, enquanto a água e a vegetação tornam o espaço especialmente agradável para caminhar e fotografar. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

No Museu do Mel encontrei uma experiência que vai muito além de uma simples visita a uma loja de produtos apícolas. O espaço apresenta o universo das abelhas de maneira didática, aproximando o visitante do processo de produção do mel e, nas atividades de campo, permitindo conhecer as colmeias usando a própria indumentária de apicultor.
 
O jardim em estilo oriental, com lago, carpas e patos, acrescenta um ambiente de contemplação ao passeio. Entre conhecimento, natureza e sabores, foi uma das experiências mais completas da viagem.

No Museu do Mel, entre a mata e o ambiente rural da serra, uma curiosa colmeia em formato de pequena casa chama a atenção. A miniatura reproduz, de maneira lúdica, uma moradia para as abelhas e remete diretamente à atividade da apicultura, mostrando como a produção de mel está intimamente ligada à natureza. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Foi uma experiência particularmente interessante porque permitiu enxergar a paisagem rural não apenas como cenário, mas como um sistema produtivo no qual vegetação, agricultura, criação de abelhas e atividade econômica estão interligados.

Almoço | Restaurante Cebolinha

Depois de horas percorrendo estradas serranas, o almoço representou uma pausa importante antes da segunda metade da viagem, que seria completamente diferente.

No Cebolinha - Comida Caseira, na Vila Suíça, fiz uma pausa para o almoço e encontrei exatamente o que o nome sugere: uma refeição simples, bem preparada e com aquele sabor de comida feita em casa. O tempero saboroso e o ambiente tranquilo, cercado pelo verde, contribuíram para tornar a parada ainda mais agradável. 
 
Em meio ao verde exuberante e à atmosfera tranquila da Vila Suíça, em Nova Friburgo, fiz uma pausa para refeição no Cebolinha – Comida Caseira. Cercado pela natureza e com o acolhimento típico da serra, o restaurante oferece uma experiência marcada pelo sabor da comida preparada no fogão a LENHA. Foi uma parada agradável para descansar, apreciar a tranquilidade do lugar e saborear uma refeição que combina perfeitamente com o clima acolhedor e rural da Vila SUÍÇA. EDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

O atendimento dos proprietários, marcado pela cordialidade e pelo clima familiar, completou a experiência. Foi uma pausa acolhedora antes de retomar a estrada e seguir para as próximas descobertas do roteiro

Até então, a viagem tinha sido dominada pela serra, pela agricultura e pela cultura de Nova Friburgo.
A partir dali, começaria uma viagem pela memória ferroviária.

Jardim do Negô | Nova Friburgo

O ambiente proporcionou uma mudança de ritmo. A vegetação passa a dividir espaço com intervenções artísticas, criando uma experiência em que natureza e produção cultural se encontram.

No Jardim do Nêgo, em Campo do Coelho, encontrei uma das experiências mais singulares da viagem. O artista Geraldo Simplício transformou os próprios barrancos do terreno em enormes esculturas, algumas com até dez metros de altura, que ganham acabamento natural com o musgo favorecido pelo clima úmido da serra.
 
Entre as grandes obras do Jardim do Nêgo, “O Parto” é a que mais se destaca pela dimensão. Esculpida diretamente no barranco por Geraldo Simplício, a figura representa uma mulher dando à luz, em uma composição integrada ao próprio terreno e à vegetação. A obra possui cerca de 7,5 a 10 metros de altura, sendo uma das maiores esculturas do espaço. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Entre arte, vegetação e erosão, as obras estão em constante transformação. O pequeno museu complementa a visita com registros da trajetória do artista e do processo de criação das esculturas.
Depois de uma manhã observando a paisagem em grande escala — montanhas, vales, plantações e estradas — o jardim trouxe uma experiência mais próxima, voltada aos detalhes.

Campodo Coelho → Dona Mariana | RJ-242

Deixei a área de Nova Friburgo e segui em direção a Sumidouro, passando pela RJ-242, no trecho entre Conquista e Dona Mariana.

Deixando a RJ-130 em Conquista, entrei na RJ-242, seguindo em direção a Campinas, já no território de Sumidouro. Esse trecho é particularmente interessante porque a própria RJ-242 resulta da incorporação, em 2010, de antigos trechos de rodovias municipais — incluindo a FRI-005, V-03/SU e SU-07 — ao sistema rodoviário estadual. O traçado oficial parte justamente do entroncamento com a RJ-130, em Conquista, e segue pelo território de Nova Friburgo e Sumidouro. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A paisagem muda novamente. O trânsito diminui, a ocupação urbana se rarefaz e o território assume características predominantemente rurais. Pequenas propriedades, pastagens, áreas agrícolas e fragmentos de vegetação passam a dominar a paisagem.

Nesse trecho, a própria estrada ajuda a compreender a organização territorial de Sumidouro: os núcleos urbanos são separados por grandes espaços rurais, e os deslocamentos entre eles dependem de uma rede de estradas estaduais e vicinais.

Ao chegar a Campinas, deixei o eixo principal da RJ-242 e tomei o acesso em direção a Dona Mariana. A partir dali, o percurso se torna ainda mais rural e ganha importância histórica: estamos nos aproximando de uma área diretamente relacionada ao antigo Ramal de Sumidouro da Estrada de Ferro Leopoldina, preparando a transição da viagem rodoviária para o trecho percorrido pelo antigo leito ferroviário. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Dona Mariana surge como um desses antigos núcleos de passagem.
E é justamente ali que o roteiro deixa de ser simplesmente rodoviário.

Dona Mariana → Murinelli | O antigo Ramal de Sumidouro

Em Dona Mariana, deixei o asfalto e entrei em um caminho completamente diferente: o antigo leito do Ramal de Sumidouro.
Foi provavelmente o trecho mais emblemático de toda a viagem.
Por alguns quilômetros, deixei de viajar por uma rodovia construída para automóveis e passei a percorrer o caminho que, mais de um século atrás, era destinado aos trens.

Ao entrar na Fazenda Dona Mariana, a paisagem rural deixa evidente que o caminho continua integrado à dinâmica da propriedade. Logo na entrada, o mata-burros permite a passagem dos veículos e pessoas, dificultando a saída dos animais, enquanto porteiras, cercas e bebedouros naturais revelam o cotidiano pecuário da fazenda.

Foi na Fazenda Dona Mariana que a viagem ganhou uma dimensão histórica diferente: deixamos a estrada e passamos a caminhar pelo antigo leito do Ramal de Sumidouro. Entre mata, encostas e áreas rurais, seguimos por um caminho que um dia foi ocupado pelos trilhos da ferrovia e que hoje permanece incorporado à paisagem como uma espécie de corredor histórico a céu aberto. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

O Ramal de Sumidouro foi inaugurado no século XIX e, em 1889, alcançou a ligação com a Estrada de Ferro do Cantagalo, em Conselheiro Paulino. As estações de Dona Mariana e Murineli foram inauguradas em 11 de março de 1889. O ramal seria posteriormente integrado à Leopoldina Railway e permaneceu em operação até sua supressão em 31 de maio de 1967.

Nesse trecho, a paisagem assume uma dimensão quase arqueológica.
O antigo leito ferroviário ainda pode ser reconhecido no terreno. Em alguns pontos, aparecem estruturas relacionadas à antiga operação ferroviária, enquanto a vegetação tomou conta de partes do caminho.

Um dos mais expressivos testemunhos da antiga infraestrutura ferroviária de Dona Mariana e Murinelli, os três túneis foram abertos no relevo montanhoso para permitir a passagem da antiga linha férrea da Estrada de Ferro Leopoldina. Hoje, sem os trilhos e integrados à paisagem rural de Sumidouro, as estruturas permanecem como marcas da engenharia ferroviária que atravessou as serras do município, compondo, junto às antigas estações, pontes, caminhos e propriedades rurais, um importante conjunto histórico e paisagístico do antigo ramal Ferroviário. FOTO: ÉDIPO AMARAL | Mobilidade Fluminense

A antiga ferrovia seguia por Dona Mariana, Murineli, Barão de Aquino e Sumidouro, conectando a região à rede ferroviária de Nova Friburgo e, por extensão, a outros trechos que alcançavam o Vale do Paraíba e Minas Gerais.

O que impressiona é perceber que aquele caminho, hoje utilizado por pessoas e veículos em escala muito menor, já foi uma infraestrutura estratégica para o transporte de passageiros e cargas.
O tempo transformou uma ferrovia em trilha, mas não apagou completamente sua geometria.

Túneis de Murineli

Foi nesse momento que a história ferroviária deixou de ser abstrata.
Os túneis foram abertos na rocha para permitir que a ferrovia vencesse o relevo da serra. Atualmente, o visitante pode percorrer o antigo caminho e observar os túneis, nascentes, quedas d'água e a vegetação que se desenvolveu ao redor da antiga infraestrutura.

Os Túneis de Murinelli foram elementos fundamentais para a implantação e operação da ferrovia entre Murinelli e Dona Mariana. Escavados para vencer o relevo acidentado da Serra, permitiram que os trilhos transpusessem as encostas e conectassem áreas rurais ao sistema ferroviário regional. O ramal atravessava áreas de intensa produção agrícola, tendo o café como principal carga. Em 13 de agosto de 1892, o jornal O Friburguense registrou o transporte de produtos das lavouras de Carmo, Sumidouro e parte de Nova Friburgo, citando Bela Joana, Sumidouro, Barão de Aquino, Murineli, Dona Mariana e Conselheiro Paulino como pontos de concentração das cargas. Além do café, a ferrovia movimentava outros gêneros agrícolas, bagagens e encomendas, fazendo da estação de Dona Mariana um importante entreposto rural. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A sensação é singular: estou caminhando por uma infraestrutura concebida para locomotivas a vapor, mas que hoje é lentamente reincorporada pela natureza.
A floresta, as rochas e a água ocupam os espaços que antes pertenciam à ferrovia.

É uma das situações em que a história do transporte pode ser lida diretamente na paisagem.

Pouco depois, cheguei a Murineli. A antiga estação, inaugurada em 1889, ainda permanece como referência física daquele passado ferroviário, embora sem os trilhos originais. O edifício teve diferentes usos depois da desativação do ramal.
Nesse ponto, fica ainda mais evidente que Murineli não é simplesmente uma localidade rural: é também um fragmento preservado da geografia ferroviária do século XIX.

Murinelly, posteriormente grafada Murineli, recebeu seu nome em referência ao engenheiro, militar, político e empresário José Arthur de Murinelly, cuja trajetória esteve ligada à engenharia e aos empreendimentos econômicos do Brasil Imperial. A localidade constituiu um ponto estratégico de articulação territorial do Ramal de Sumidouro, onde a ferrovia se relacionava com os caminhos terrestres que posteriormente se consolidariam no eixo da RJ-148. Essa convergência favoreceu a circulação de passageiros, mercadorias e da produção agrícola entre as áreas rurais de Sumidouro e os centros regionais, especialmente Nova Friburgo, conferindo a Murinelly características de entreposto rural e de apoio à circulação regional. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

A própria legislação estadual chegou a incluir o trecho Murinelli–Sumidouro do antigo Ramal de Sumidouro em programa voltado à recuperação da malha ferroviária para fins turísticos.

Ruínas de Ponte Seca

Ali, a presença ferroviária se torna ainda mais evidente.
Restam as estruturas da antiga ponte, testemunhas de uma época em que a engenharia ferroviária precisava vencer os vales e desníveis do relevo serrano.
A Ponte Seca fazia parte do próprio Ramal de Sumidouro, situada entre as antigas estações de Barão de Aquino e Murineli.

A denominação “Ponte Seca” está relacionada à própria natureza da estrutura: ao contrário das pontes destinadas à transposição de rios ou cursos d’água, seus pilares sustentavam o leito ferroviário sobre uma depressão do terreno, permitindo que a linha transpusesse o desnível entre as elevações. Registros históricos descrevem a estrutura como uma grande ponte em curva, originalmente constituída por nove pilares de alvenaria de pedra, formando um viaduto ferroviário com aproximadamente 100 metros de extensão. A dimensão da obra evidencia os desafios impostos pelo relevo serrano à implantação do Ramal de Sumidouro. Construída em bitola métrica, a ferrovia precisava vencer sucessivos desníveis e obstáculos naturais por meio de cortes, aterros, túneis e estruturas elevadas. Nesse mesmo corredor encontrava-se a Estação Murineli, inaugurada em 11 de março de 1889, em uma área situada a aproximadamente 751 metros de altitude. A Ponte Seca, portanto, integrava um complexo conjunto de soluções de engenharia que permitiu à ferrovia alcançar e atravessar o território de Murineli, garantindo a continuidade do eixo ferroviário entre Sumidouro e os demais pontos do ramal. FOTO:ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Observar essas ruínas em meio à paisagem rural produz um contraste poderoso: a infraestrutura perdeu sua função há décadas, mas continua capaz de explicar por que a ferrovia escolheu aquele traçado.
Murineli

Pedra Duas Irmãs | Sumidouro

Depois de atravessar túneis, ruínas e antigas estruturas ferroviárias, a paisagem natural voltou a assumir o protagonismo.

A formação rochosa funciona como uma espécie de encerramento simbólico da experiência em Sumidouro: depois de acompanhar as marcas deixadas pelo homem sobre o território, volto a observar a geologia que, em última análise, condicionou todos aqueles caminhos.

A Pedra Duas Irmãs constitui um marco geográfico no corredor de entrada de Sumidouro, onde o relevo rochoso, o vale do Rio Paquequer e o eixo de circulação se articulam. Sua localização permite compreender como a hidrografia e a topografia condicionaram historicamente a ocupação e a implantação dos sistemas de transporte no município. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Foram justamente as montanhas, vales, rios e desníveis que determinaram onde a estrada poderia passar, onde a ferrovia precisaria construir túneis e pontes e onde as comunidades poderiam se estabelecer.

Segui pela RJ-148 até Sumidouro e, posteriormente, pela RJ-154, em direção ao Pião.

Aqui o território volta a se abrir em uma sequência de pequenas localidades rurais, vales agrícolas e áreas de relevo ondulado.
A ocupação é muito menos densa que aquela encontrada na Baixada ou nos centros de Teresópolis e Nova Friburgo. As localidades aparecem como pequenos núcleos conectados por estradas, enquanto a maior parte da paisagem permanece rural.

A própria documentação territorial de Sumidouro registra a presença da antiga linha férrea e de caminhos associados ao traçado ferroviário, inclusive referências à antiga linha e à RJ-148 em diferentes pontos do município.

Pião → Saracuruna | BR-116

No Pião, retornei à BR-116, iniciando a última grande etapa da viagem.
A partir daqui, a paisagem volta gradualmente a ganhar densidade.
As áreas rurais dão lugar a ocupações mais contínuas e, conforme me aproximo novamente da Baixada Fluminense, a presença de estabelecimentos comerciais, postos de combustíveis, acessos urbanos e tráfego aumenta.

A pequena ponte, cercada por vegetação e encostas arborizadas, revela como a rodovia precisou se adaptar aos cursos d’água e ao relevo serrano. É uma paisagem que resume bem esse trecho da viagem: uma estrada moderna atravessando um território marcado por montanhas, água, vegetação e antigas rotas de ligação entre o litoral e o interior. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

Na Serra do Capim, a BR-116 acompanha de perto o relevo e a rede de drenagem local. Em uma das curvas, a estrada transpõe o Córrego Taboinhas, devidamente sinalizado às margens da pista.

O trajeto foi uma sucessão de diferentes formas de ocupação e circulação. Foi também uma viagem por diferentes tempos.
Na BR-116, encontrei a infraestrutura rodoviária contemporânea, administrada por concessionária, com bases operacionais, atendimento aos usuários, postos e serviços.
Na RJ-130, encontrei a estrada que conecta dois importantes centros serranos e, ao mesmo tempo, serve à produção agrícola de uma das principais áreas hortícolas do estado.
Em Dona Mariana e Murineli, encontrei algo completamente diferente: uma estrada que já foi ferrovia.
Os trilhos desapareceram, mas ficaram as estações, os túneis, a Ponte Seca, os antigos equipamentos e o próprio desenho do caminho.

E, sobre tudo isso, permanece a natureza.
A Mata Atlântica ocupa encostas, acompanha cursos d'água e envolve antigas estruturas. Os cultivos ocupam os vales. As montanhas determinam os caminhos. Os rios organizam as bacias. As cidades se concentram onde o relevo permite.

O cruzamento entre a Extensão de Guapimirim e a RJ-122 representa a sobreposição de dois importantes eixos de mobilidade territorial de Guapimirim. De um lado, a ferrovia prolonga o sistema ferroviário metropolitano a partir de Magé até o núcleo urbano de Guapimirim; de outro, a RJ-122 estrutura a conexão rodoviária longitudinal entre Guapimirim e Cachoeiras de Macacu. A interseção evidencia a relação histórica entre os sistemas ferroviário e rodoviário na organização espacial do município, especialmente na área de transição entre o tecido urbano e os caminhos que conduzem ao interior serrano. FOTO: ÉDIPO AMARAL | MOBILIDADE FLUMINENSE

No fim, percebi que o verdadeiro roteiro não estava apenas nas atrações que havia programado.
O roteiro estava na própria estrada.
Cada curva revelava uma paisagem; cada ponte contava uma história; cada montanha explicava uma escolha de traçado; cada rio revelava uma direção; cada antiga estação lembrava que, antes dos automóveis, eram os trens que conectavam essas comunidades.

Foi uma viagem entre Teresópolis, Nova Friburgo e Sumidouro, mas também entre diferentes períodos da história dos transportes do Rio de Janeiro — da ferrovia do século XIX à rodovia contemporânea — atravessando uma paisagem onde natureza, agricultura, urbanização e memória ferroviária continuam coexistindo.
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O projeto apresenta uma abordagem abrangente e estruturada sobre a mobilidade no Estado do Rio de Janeiro, reunindo análises históricas, técnicas e territoriais. São explorados os corredores e sistemas de transporte implantados e planejados, com detalhamento de suas características operacionais e estratégicas. O conteúdo também contempla a evolução da mobilidade urbana nas cidades e regiões fluminenses, desde sua origem até o cenário atual, destacando transformações, desafios e perspectivas.

Além disso, são examinados os principais eixos de conexão entre municípios, com ênfase em dados técnicos, particularidades geográficas e a relevância desses caminhos para a integração regional. O material inclui ainda estudos sobre terminais de transporte, abordando sua função, estrutura e importância dentro da rede de mobilidade. Complementando essa análise, são apresentados os contextos históricos, geográficos e socioespaciais das localidades fluminenses, evidenciando as dinâmicas urbanas e rurais que influenciam diretamente os deslocamentos no estado.

Descubra o território fluminense por uma nova perspectiva. Este portal convida você a percorrer estradas, trilhos, rios e cidades, explorando histórias, paisagens, curiosidades e os sistemas de transporte que conectam o Estado do Rio de Janeiro. Em cada publicação, você encontrará informações, análises e registros que unem mobilidade, geografia, cultura e memória, revelando como os caminhos e as localidades fluminenses ajudam a contar a história do estado. Mergulhe em nossos conteúdos e embarque nessa jornada de conhecimento e descoberta.


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