Caminhos Industriais: Baixadas Litorâneas - Cidades do sal, do açúcar e da pesca

| Sem comentário

As planícies das baixadas são formadas de sedimentos, ou seja, materiais transportados pelos rios – argila – ou pelo mar e pelo vento – areia. A argila formou uma faixa de terra hoje coberta pelo mar. Mais tarde, as grandes massas de gelo continental derreteram e o nível dos oceanos subiu, permitindo que as águas batessem diretamente nas rochas, desgastando-as. Grandes quantidades de sedimentos foram sendo depositadas sobre os terrenos argilosos, até formarem as faixas ou cordões de areia, desde a serra até o mar.

A localidade chamada Quilombo, situada na região serrana do município de Casimiro de Abreu, está localizada a cerca de 5 km a oeste do Rio Sana e aproximadamente 2 km a sul do Rio Macahé, hoje em terras da família Schueller. Nas margens do caminho de acesso bem como no Quilombo a mata atlântica é abundante, de diversificada fauna e flora, sendo fartas as fontes e cachoeiras. A mais de 700 metros de altitude, a posição geográfica do Quilombo é estratégica, pois permite que a chegada de visitantes seja avistada à distância. Na região ao redor dos rios Macaé e Sana, encontram-se as terras concedidas aos colonos por Pedro I, em 1821. Para ocupá-las, foi necessário destruir os quilombos e os quilombolas existentes naquelas localidades. Os lotes foram divididos e nomeados com os sobrenomes das famílias proprietárias: Perrier, Perroud, Musy, Schueller, Stöcklin, Bohrer, Anklin, Moser, Pastine, Probst, Mayer, Monnerat e Mettraux. No Quilombo, havia um grande terreno desmoitado e cultivado, inde era possível encontrar batata doce, banana, alguns pés de café e de cana de açúcar.

Em algumas áreas, ocorreu a formação de restingas que correspondem a faixas de areia depositadas pelo mar ao longo da costa, separando um “mar interno” do grande mar externo. Muitas vezes o mar interno se transforma numa lagoa. As restingas constituem os aspectos mais típicos do litoral fluminense e dão lugar a uma paisagem característica de lagoas – antigas baías – fechadas por areia. Assim se formaram as lagoas Feia, Araruama, Saquarema e Maricá. Essas lagoas ficam separadas do mar pelas restingas.


Toda a baixada é cortada por inúmeros rios, de modo geral oriundos das escarpas da serra do Mar. Esses rios, ao chegarem à planície da baixada, mudam completamente de aspecto. Enquanto descem pelos terrenos inclinados das escarpas da serra, suas águas são cristalinas, pois eles avançam sobre a rocha e correm com grande velocidade, transportando cascalhos e pedras de tamanho grande.

Entre o Morro do Quilombo e a Serra do Amar e Querer, na RJ 128 Estrada do Palmital, situa-se a localidade do Rio Mole. Em meados do século XVIII o sertão de Bacaxá se estendia da margem esquerda do Rio Bacaxá, na Serra da Castelhana, até o sul da Lagoa de Saquarema, passando pela serra do Amar e Querer, no limite com o sertão de Tanguá. Eram terras praticamente “incultas” e vazias. O assoreamento, a baixa qualidade da água, o mau cheiro, as freqüentes enchentes, os riscos à saúde, as atividades de lazer dadas como impróprias e a pesca amadora comprometida provocaram a gradativa desvalorização dos terrenos do entorno da lagoa. No entanto, a desvalorização ao invés de frear a ocupação dos loteamentos para veranistas, na verdade apenas favoreceu a ocupação dpo Sertão por populações de baixa renda, que deram origem aos bairros conhecidos como Boqueirão e Mombaça, onde se inserem comunidades como Tingüí, Rio Seco, Rio Mole e Porto do Roça.

Quando alcançam a planície, não há mais declividade e os rios correm lentamente, só transportando sedimentos muito finos como argila, restos vegetais, limos, que vão se depositando em seu leito. Por essa razão, na planície, o fundo dos rios, em vez de pedregoso, é lodoso. Esse lodo, assim como a própria água, é carregado de húmus do solo das florestas. Se esse rio passa por uma região mais baixa, como uma antiga lagoa junto ao mar, a mistura com o sal produz a coagulação e a precipitação desse material fértil. Assim se formará um sedimento muito nutritivo, porém mole como um mingau, que chega a ter dezenas de metros de profundidade. Nesses terrenos, cresce o manguezal onde, graças à riqueza em nutrientes, se desenvolvem camarões, tainhas, lagostas, mariscos. A fauna do manguezal é muito variada, mas os animais característicos dessas regiões são os diversos tipos de caranguejos ali encontrados.


No estado do Rio de Janeiro há a predominância da metrópole carioca, de onde partem eixos de urbanização para outras áreas. Pode ser identificado um eixo urbano litorâneo centrado na Região dos Lagos, que vai da região metropolitana do Rio de Janeiro até Macaé.


Todos os municípios dessa área já apresentam um elevado índice de urbanização, devido às constantes melhorias nas comunicações – construção de novas rodovias, aeroportos etc. Os principais elementos do dinamismo dessa área foram o turismo, a reativação da pesca e da maricultura, algumas indústrias e, em grande parte, a exploração de petróleo na plataforma continental. Até essas atividades se organizarem ou se reorganizarem, como é o caso da pesca, as baixadas litorâneas viveram algumas décadas de baixo nível de crescimento econômico que acabou se revertendo em condições de vida pouco favoráveis, o que não significa que as novas atividades tenham efetivamente dado mais benefícios à população, em geral.

Na primeira metade dos anos 1940, uma pacata vila de pescadores no então distrito cabo-friense de Arraial do Cabo entrou no radar do governo de Getúlio Vargas (1930-1945) para a implantação de um projeto de industrialização nacional. Iniciado em 1943, o projeto só saiu de fato do papel no fim dos anos 1950. Salineiros nordestinos pleiteavam que a Álcalis fosse construída longe de Arraial. Nesse caso, os laços familiares foram decisivos para o estado do Rio ganhar a disputa - Tinha a força política do Ernâni do Amaral Peixoto, genro de Vargas, que era interventor no Rio, e posteriormente assume postos importantes, e defendeu a posição do Rio, por ser próximo dos maiores mercados consumidores do país e efetivamente no caso da Álcalis, por ser uma região produtora de sal que poderia atender a demanda. A trajetória de uma empresa nascida da aventura desenvolvimentista brasileira foi marcante para a formação do Arraial do ‘Cabo. Para Arraial teve uma importância muito grande, no sentido de uma indústria transformadora que se estabelece numa colônia de pescadores, numa vila rústica. Uma sociedade que vive da pesca e que está no entorno de uma grande indústria de base. Isso mudou muito a configuração desse distrito, implicando num fluxo de migrantes muito grande para Arraial e Cabo Frio, de nordestinos e de uma população que vem do Norte Fluminense, de Campos e Itaperuna, pelo fato dessa empresa oferecer condições de trabalho muito superiores às que os trabalhadores no estado do Rio tinham naquela época.

Na regionalização turística do estado, adotada pela Turisrio, as baixadas litorâneas correspondem, em sua maior parte, à Costa do Sol, que inclui Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios e Iguaba Grande. Cabo Frio é o centro turístico mais importante.

Os municípios de Búzios e Arraial do Cabo, que se emanciparam recentemente, assim como São Pedro da Aldeia e Saquarema, possuem, além das praias, uma arquitetura colonial significativa, herança do período colonial brasileiro, quando a região era explorada economicamente com a pecuária, a agricultura e a pesca.

A mobilização para o plantio de cana de açúcar realizada pela Agrisa, com uma meta audaciosa de chegar a uma produção de 50 milhões de litros de álcool combustível levou a diversos arrendamento de propriedades, fazendas, nas zonas rurais dos municípios de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Araruama, em toda aquela região. A população local se preocupa com as consequências do plantio de cana de açúcar, à jusante da barragem da Lagoa de Juturnaíba, na parte baixa, o que afetava os corpos hídricos do Rio São João e do Rio Una, além de afetar os poços artesianos das comunidades rurais, principalmente as comunidades quilombolas, nos quilombos Preto Forro, Maria Romana, Fazenda Espírito Santo, São Mateus, assentamento rural da Fazenda Negreiros, Botafogo. Para o plantio da cana são empregados defensivos agrícolas no tratamento do solo, pesticidas, linhaça, que, levados pelas valas de drenagem, pelas chuvas, correm em direção ao manancial de Juturnaíba, que fornece água para toda a região de Saquarema à Armação dos Búzios, através das concessionárias Águas de Juturnaíba e Pró-Lagos. A Lagoa de Juturnaíba, situada entre os municípios de Araruama e Silva Jardim, é considerada por muitos como um santuário ecológico. Suas águas banham a Reserva de Poço das Antas, principal responsável pela sobrevivência e preservação do mico-leão dourado, no que resta de Mata Atlântica, no Rio de Janeiro.

Na cidade de Araruama são encontradas as reservas de salinas (ou seja, uma área de concentração de sais dissolvidos, presentes em águas interiores, como é o caso das lagoas) existentes no estado do Rio de Janeiro. As salinas de Araruama abasteciam a Companhia Nacional de Álcalis – situada no município de Arraial do Cabo (localizado a poucos quilômetros de Araruama).


A Álcalis foi fruto de investimentos federais feitos nas décadas de 1950 e 1960, mas a indústria salineira fluminense, que já teve grande representatividade na atividade industrial do estado, encontrou forte concorrência na indústria salineira nordestina e vem diminuindo sua participação no total da produção do país. Essa freada na produção provocou inúmeros desempregos na região e tem diminuído cada vez mais a participação industrial regional no setor.

O desenvolvimento de Tamoios, foi acentuado com o crescimento da indústria do petróleo em Macaé e Rio das Ostras, classificando-o como uma “cidade Dormitório”, da microrregião. Com o distanciamento do poder político do centro do município, iniciou no então Distrito de Búzios um movimento pela Emancipação. Após a emancipação, parte do Território de Búzios (Praia Rasa, e Maria Joaquina), foi incorporada ao distrito de Tamoios. Maria Joaquina é um bairro pobre, com a maioria das ruas em terra batida e uma população em crescimento. Atualmente, são 13 mil habitantes, historicamente ligados a Búzios, cujo Centro fica mais próximo — 25 minutos, contra uma hora e meia até o Centro de Cabo Frio. Desde a emancipação, o bairro é motivo de briga judicial, cujo o motivo seria a chance de um aumento na receita, especialmente com os royalties de petróleo. Em 2020, O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) anulou a divisão feita pela lei estadual nº 7.880/2018 que alterou o limite entre Cabo Frio e Armação dos Búzios. Desta forma, o bairro Maria Joaquina foi definitivamente confirmado como parte do município cabofriense.


No século XIX, grande parte da população de Cabo Frio se dedicava à pesca. Com a indústria do sal veio também a possibilidade da salga do peixe e da exportação do mesmo. A libertação dos escravos e o declínio da agricultura transferiram muitos negros para a pesca, aumentando a quantidade de mão-de-obra utilizada nessa atividade. A pescaria avançou tanto que no início do século XX a cidade já possuía até algumas fábricas de conservas de camarão.


Atualmente, são várias as modalidades de pesca realizadas nessa parte da costa. A pesca interior é realizada na lagoa de Araruama, onde ocorre também a aqüicultura, ou seja, a criação de peixe e camarão no ambiente aquático. Essa lagoa tem recebido poluentes, principalmente esgoto in natura despejado em suas águas, já que os municípios situados às suas margens como Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio possuem uma rede de tratamento de esgoto insuficiente para o grande número de habitantes da região. Como se sabe, o crescimento populacional apresenta índices elevados na região onde se desenvolve o turismo. Os resultados desse crescimento são catastrófi cos para quem sobrevive das atividades ligadas aos ambientes aquáticos.

Ponte dos Leite é um povoado à margem ocidental da lagoa de Araruama. No local residia Bento Leite de Andrade e seu filho, Capitão Francisco Leite Pereira de Andrade, senhor da fazenda de engenho de fabricar açúcar. Na enseada de ponte dos leites havia um porto de embarque e desembarque onde chegavam mercadorias vindas de Cabo Frio e para lá levava açúcar dos engenhos do Capitão. A estação de Ponte dos Leite foi inaugurada em 1914, após ser implantado o prolongamento da E. F. Maricá que chegou até Araruama. Na localidade, se instalaram algumas indústrias para o beneficiamento do sal e fabricação de cal, gesso e barrilha junto a ferrovia. Ponte dos Leite possuía atividades comerciais mais intensas do que o próprio centro da cidade de Araruama. Quando a ferrovia foi desativada na década de 1960, as indústrias também encerraram suas atividades. Sem possuir um meio de transporte eficiente as indústrias fecharam as portas.


A pesca de subsistência, praticada pela classe mais desfavorecida ainda em moldes artesanais, com embarcações de pequeno porte que retiram o pescado do mar e comercializam o produto com as firmas instaladas na área ou diretamente com a população, é a que mais tem sofrido com a concorrência das grandes empresas pesqueiras, como a empresa Brás Fish, que possui capital binacional. A pesca modernizada gera empregos e propicia interações que ligam a produção de pescado em Cabo Frio até mesmo ao mercado estrangeiro, através das exportações.

O principal acesso a Iguaba Grande é pela RJ-106, que liga o município a Araruama, a oeste, e a São Pedro da Aldeia, a oeste. Hoje esta cidade dispõe de um acesso direto também pela rodovia Rio-Lagos, a RJ-124. A região enfrentava dificuldades em transportar a produção de sal. Com a inauguração em 1914 do prolongamento da Estrada de Ferro Maricá até Iguaba Grande, na época parte integrante do município, o transporte de mercadorias e pessoas foi facilitado, as lavouras se desenvolveram, a produção de sal aumentou, diversas indústrias surgiram e o comércio se desenvolveu. A criação da Base Naval, na área urbana de São Pedro da Aldeia em 1966, causou importantes alterações. Os loteamentos de veraneio desdobraram-se pela RJ-106 em direção a Iguaba Grande, uma cidade tanto com características de cidade de praia, quanto com características de cidade de interior. Há uma razoável zona rural na cidade. 

Entretanto, grande parte da população local não consegue se integrar nessa modalidade de pesca (que exige altos investimentos), nem nas atividades ligadas ao turismo. Muitos pescadores ficam assim excluídos das atividades econômicas mais importantes desses municípios e acabam se deslocando para as áreas mais periféricas dos municípios costeiros, onde se encontra uma parte marginalizada da população desses municípios que foram “invadidos” pelas novas explorações.

Em Rio das Ostras, já se sente o reflexo do crescimento de Macaé, com a ampliação do mercado imobiliário – e, consequentemente, do comércio e serviços –, já que é crescente o número de moradores de Rio das Ostras que trabalham em Macaé.

Pátio da Fazenda União para o carregamento de dormentes.
Rocha Leão apresenta um clima ameno e com ventos relativamente fortes. Sua sede é cercada pela Reserva Biológica União e pelas serras do Pote, da Careta e do Segredo. Na segunda metade do século XVIII, as terras da região pertenciam em sua maior porção ao Distrito da Cidade de N. S. da Assunção de Cabo Frio, com pequena parte localizada na Freguesia de N. S. das Neves e Santa Rita da Aldeia de Macaé. Em 04 de novembro de 1888 era inaugurada a ligação ferroviária entre Rio Bonito e Macaé, com a estação da União passando a denominar-se Rocha Leão, em homenagem a Antônio da Rocha Fernandes Leão, advogado, fazendeiro e político, foi Presidente da Província do Rio de Janeiro de 1886 a 1888, e esteve acompanhando os trabalhos das estações do trecho Poço das Antas-Indaiassú-União. Após a queda do preço do café, no final dos anos 20 do século XX, a Fazenda União passa a ter como atividade principal o fornecimento de lenha à Leopoldina Railway.



Tags : ,

Nenhum comentário:

Postar um comentário

[2][iconeI][style-1][LEIA TAMBÉM][As mais lidas até o momento]

Total de visualizações de página


Somos movidos pelo interesse de explorar os meios, modos e regras que integram o sistema de mobilidade urbana no Estado do Rio de Janeiro. O avanço tecnológico tem trazido mais dinamismo nas cidades, fazendo com que a população evolua e acompanhe esse avanço.

Buscamos obter informações, matérias, históricos e projetos de mobilidade e transformação urbana, assim como a realização de visitas técnicas em empresas, concessionárias e instituições relacionadas à Mobilidade Urbana do RJ, cuja perspectiva é abordar temas mais diversos e estar inteirado no que há de vir nos serviços de transportes.


Postagem em destaque

Luxor Transportes e Turismo - A Gigante da Baixada Fluminense

A Luxor Transportes e Turismo foi uma empresa polêmica, que ao longo de sua trajetória desencadeou reviravoltas que mexeram estruturalmente ...